Dentro do seu carro novo, climatizado pelo potente ar condicionado, Rodrigo ouvia sua música esperando o farol abrir. O farol era lento e na calçada, apoiada em uma muleta, começava a atravessar, uma moça que pela aparência sofrida parecia estar na casa dos trinta, mas tinha vinte um, vinte e um anos apoiada na bendita muleta que muitas vezes era maldita.
Ela começou a atravessar a rua com a dificuldade de quem tem uma perna torta que não podia ser apoiada no chão e ao começar o seu desfile ritimado e esquálido pela faixa de pedestres, repara no carro bonito e no moço bonito dentro dele.
Os olhos se cruzam...e o tempo para.
Milésimos de segundo depois o tempo volta.
Rodrigo, com certo asco se dá conta de que está sendo paquerado pela moça, a paralítica de perna torta e disfarçadamente vira o rosto. E ela? Ela estava paquerando mesmo, sentiu a necessidade feminina de ser desejada e de escolher quem queria para si, mesmo sabendo que não seria correspondida. Rodrigo olha novamente.
Os olhos se cruzam...e o tempo para.
Milésimos de segundo depois o tempo volta.
Tentando resistir, mas sem muito efeito, Rodrigo é levado a um atordoante pensamento que criava visões de uma cama, ele nu, ela nua...Ela quem? A paralítica da perna torta. E antes que a imaginação concluísse o ato, num átimo de repúdio ele acelera passando o sinal vermelho. No cruzamento, um ônibus em alta velocidade pega o carro novinho de Rodrigo em cheio, fazendo-o capotar por vários metros.
Os olhos se fecham...e o tempo para.
Milésimos de segundo depois o tempo volta.
Fumaça, correria, gritaria. Sem entender e com dificuldade de respirar ele vê pessoas chegando perto dele. O carro totalmente moído mas com o rádio ainda tocando sua música. Entre quase desfalecimentos e gritos de agonia, seu olhos encontram ela, a paralítica da perna torta.
Os olhos se cruzam...e o tempo para.
Rodrigo desmaiou.
Meses depois, Rodrigo já recuperado, passeia na praça perto de casa e ao longe vê a paralítica, andando em seu rítmo cadenciado e ligeiro. Um impuslo de ódio irrompeu de dentro dele e ele tentou alcança-la, mas do alto de sua cadeira de rodas o máximo que conseguiu foi cair de cara no asfalto quebrando o nariz.
Nenhum comentário:
Postar um comentário