segunda-feira, 6 de abril de 2009

Aquilo que é e aquilo que poderia ser

“When I was a young boy
My mama said to me
There's only one girl in the world for you
And she probably lives in Tahiti
I'd go the whole wide world
just to find her”

Wreckless Eric

Ele é o tipo de pessoa que não iria sobresair em uma primeira olhada. Era bonito, não havia dúvidas, mas não era fora do comum. Suas outras qualidades, menos aparentes, eram o seu maior chamariz: Inteligente, alegre, simpático, educado e engraçado. Ela por outro lado atraia olhares curiosos de todos quando passava. Morena, alta e esbelta, ela parecia ter saído diretamente dos desenhos de Milo Manara.Todos os homens do ônibus olhavam para ela, mas ele não. Era o único. Estava acostumado com sua presença, fazia muito tempo que se conheciam. Leo e Ana, como seus respectivos pais os nominaram. O ônibus parou em mais um ponto, entrou mais um passageiro com o mesmo destino deles.

- Como você acha que vai ser? – Perguntou Ana – Acha que vai ser legal?

- O último que eu fui foi muito bom. Tenho uma boa lembrança dele – Respondeu Leo – Espero que esse seja também.

- O último que eu fui foi bom, mas tenho péssimas lembranças, estava com o meu ex.

- É, eu também estava acompanhado. Você estava lá, lembra dela?

Ana pensou um pouco e concordou – Lembro sim, como era o nome dela?

- Não importa – disse Leo resignado – Não deu certo.

- Mas vocês estavam bem quando estavam com a gente, brigavam muito?

- Não, nunca. Nos dávamos muitíssimo bem. Alias, bem até demais.

- Então o que aconteceu?

- A gente se dava bem, conversava até altas horas da noite, sempre tínhamos assunto, quando estávamos juntos a noite durava semanas. Às vezes falávamos, às vezes não, mas não importava. Era mágico estar com ela, as coisas aconteciam sem sentido. Uma vez estávamos no meio da madrugada vendo TV e discutindo influências musicais, gostávamos das mesmas coisas e o que o outro não conhecia depois que ouvia já fazia parte do repertório, então no meio dessa madrugada disse que gostava de uma música chamada “Bitter Sweet Symphony” do The Verve, acho que você conhece, aquele clipe que o cara desce a rua passando por cima de tudo e cantando. Conhece?

- Acho que sim... – Respondeu Ana pensativa com um sorriso. Sorriso aquele que, às vezes, lembrava-o que Ana tinha um não sei que de amigo, não de amiga, não por masculinidade, aliás, muito longe disso, mas pela relação de companheirismo que ela oferecia a ele sem pedir nada em troca. Aquele tipo de companheirismo tão comum nos amigos homens de velha data e tão ausente no sexo oposto.

- Então, cinco minutos depois de eu dizer para ela que aquela música me fazia feliz, que eu era louco pela música e que nunca tinha ouvido nada que me fizesse sentir daquele jeito, cinco minutos depois disso tudo começou a tocar a musica na TV. Começou a passar um clipe da música. Foi um momento mágico, e comentamos disso por semanas.

- Então, sem querer ser chata mas... Você não deu motivo nenhum pra não estar com ela.

- Ah! Sim, eu sei. O motivo na verdade é esse sabe. Nós éramos perfeitos um para o outro em todos os aspectos, menos em um. Um sempre queria uma coisa diferente do outro. Quando eu queria vê-la, ligava e ela não atendia, quando ela ligava eu estava com outras pessoas. Algo como um jogo de gato e rato. Só que a coisa foi complicando e escalonando de uma forma que fomos ficando distante um do outro. Começamos a brigar e desistimos de ficarmos juntos. Somos grandes amigos até hoje, mas sabíamos que não era pra ser.

- Se não era pra ser, por que vocês começaram?

- Pela tensão que rolava entre nós. Conversávamos a noite toda, falávamos, riamos e tudo era divertido, tudo sem nenhum compromisso, mas no final sempre rolava uma tensão, olhos nos olhos e tudo mais. Daí a gente ficava. Era legal, mas difícil de dar certo, tinha que ser não programado.

- E a gente? - Ana perguntou com aquele ar dissimulado, tão necessário às mulheres bonitas que tem interesse, mas que mesmo assim precisam de proteção.

- O que que tem?

- Rola tensão?

- Sim.

- E porque nunca rolou nada?

- Por que os dois estão comprometidos com outras pessoas e por que eu me esforço para não estragar tudo. - disse Leo com aparente despojamento e, apesar da grande amizade que nutria por Ana, sentia naquelas perguntas um formigar nas pernas, vindo da adrenalina que o cérebro soltava indicando a ele que aquela era a hora de correr, correr muito para bem longe. Mas ele não correu. Ana olhou para Leo, sabia que tinha que fazer a próxima pergunta.

- E se não fossemos comprometidos?

- Nunca se sabe. Eu e você temos o nosso próprio jogo de gato e rato. Quando eu estou solteiro eu te procuro e você está com alguém. Quando eu estou com alguém, você está solteira e me procura. A gente nunca combina. Nos encontramos agora e nós dois estamos cada um com alguém. Tem uma frase que diz, existe aquilo que é e aquilo que poderia ser, nós somos o que poderia ser, mas nunca se sabe se vai dar certo.

Ana, olhou para fora e disse para Leo:

- Chegamos! Espero que seja bom...

- Vai ser ótimo, estou em boa companhia. - Disse Leo, fazendo um sorriso cúmplice, sentindo aquele formigamento nas pernas e percebendo que não era medo, nem ansiedade, mas algo como uma leve tensão que se formava no ar.

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