quinta-feira, 9 de abril de 2009

Mudanças

Como se fosse mágica algo inexplicável aconteceu. Enquanto lidava com alguns espectros de luz diferentes do comum, Daniel, um jovem físico em seu ultimo ano de faculdade, deixou cair seu cigarro apagado no feixe o qual ele esperava transmitir dados de uma maneira fácil e rápida. Ele pegou o cigarro e minutos depois acendeu-o. A primeira coisa que ele percebeu foi a falta do gosto característico do cigarro, ele havia se tornado saboroso, como café torrado. O cheiro também mudará, tanto na fumaça quanto em suas baforadas. A partir desse momento a industria do cigarro mudou. O feixe de luz não só mudou o gosto e o cheiro do cigarro, ele também inutilizou as substancias cancerígenas do produto criando algo que era parcialmente inócuo e muito mais saboroso.

A industria do cigarro passou a ganhar muito mais dinheiro. Todos os fumantes começaram a usufruir do direito de fumar na frente dos outros, leis anti-tabagistas caíram por terra. Os não fumantes não reclamavam mais, na verdade, eles agora acompanhavam os fumantes em suas baforadas diárias, era uma pausa para ambos, sem o aspecto ruim que o cigarro deixava. Muitos ex-fumantes voltaram ao vicio, alguns não fumantes adoraram a idéia do gosto de café e do suposto relaxamento que aquele novo vício criava.

Mas dentre todas as novas e supostas vantagens, existia um problema que todos tão solenemente ignoraram. A nicotina ainda estava lá. O cigarro podia não matar, mas ainda viciava, e agora, muitos diziam, viciava mais que antes. Com isso a economia entrou em colapso, não de uma vez, mas aos poucos. As pessoas compravam mais cigarros, que, por sua vez, para atender a demanda, ficavam mais caros. As pessoas iam ficando mais viciadas e cada vez com menos dinheiro. O mercado chegou em um ponto de saturação, os governos tiveram que brigar para que os produtores não parassem de cultivar alimentos em prol do tabaco. O preço dos alimentos subiram, assim como o dos cigarros. Paises entraram em guerra e quase houve uma aniquilação mundial.

As pessoas famintas, viciadas e revoltadas investiram contra as empresas de tabaco. Invadiram fabricas e escritórios, tombaram caminhões e saquearam suas cargas. O mundo estava em uma enorme guerra civil, e então, os cigarros foram proibidos para sempre, assim como as plantações de tabaco.

Nesse momento, o submundo, que infelizmente sempre está um passo a frente das pessoas justas, começou a plantar clandestinamente o tabaco. Ilegalmente entrava com ele nos paises e distribuía para as pessoas que ainda possuíam o vicio. Só que eles começaram a modificar o espectro de luz original que tirava o odor e outros males do tabaco, e com isso criaram um tabaco tão viciante que poucas pessoas resistiam depois de uma primeira tragada. O odor e o sabor sumiam com o novo espectro, deixando nenhum traço no corpo e, por conseqüência, nenhuma forma de detecção, a única desvantagem era que, agora, o cigarro era altamente cancerígeno.

A Máfia, como não podia deixar de ser, não ligava para isso. Eles não usavam o próprio produto...

terça-feira, 7 de abril de 2009

O tempo para

Dentro do seu carro novo, climatizado pelo potente ar condicionado, Rodrigo ouvia sua música esperando o farol abrir. O farol era lento e na calçada, apoiada em uma muleta, começava a atravessar, uma moça que pela aparência sofrida parecia estar na casa dos trinta, mas tinha vinte um, vinte e um anos apoiada na bendita muleta que muitas vezes era maldita.
Ela começou a atravessar a rua com a dificuldade de quem tem uma perna torta que não podia ser apoiada no chão e ao começar o seu desfile ritimado e esquálido pela faixa de pedestres, repara no carro bonito e no moço bonito dentro dele.

Os olhos se cruzam...e o tempo para.

Milésimos de segundo depois o tempo volta.

Rodrigo, com certo asco se dá conta de que está sendo paquerado pela moça, a paralítica de perna torta e disfarçadamente vira o rosto. E ela? Ela estava paquerando mesmo, sentiu a necessidade feminina de ser desejada e de escolher quem queria para si, mesmo sabendo que não seria correspondida. Rodrigo olha novamente.


Os olhos se cruzam...e o tempo para.

Milésimos de segundo depois o tempo volta.

Tentando resistir, mas sem muito efeito, Rodrigo é levado a um atordoante pensamento que criava visões de uma cama, ele nu, ela nua...Ela quem? A paralítica da perna torta. E antes que a imaginação concluísse o ato, num átimo de repúdio ele acelera passando o sinal vermelho. No cruzamento, um ônibus em alta velocidade pega o carro novinho de Rodrigo em cheio, fazendo-o capotar por vários metros.


Os olhos se fecham...e o tempo para.

Milésimos de segundo depois o tempo volta.


Fumaça, correria, gritaria. Sem entender e com dificuldade de respirar ele vê pessoas chegando perto dele. O carro totalmente moído mas com o rádio ainda tocando sua música. Entre quase desfalecimentos e gritos de agonia, seu olhos encontram ela, a paralítica da perna torta.


Os olhos se cruzam...e o tempo para.

Rodrigo desmaiou.


Meses depois, Rodrigo já recuperado, passeia na praça perto de casa e ao longe vê a paralítica, andando em seu rítmo cadenciado e ligeiro. Um impuslo de ódio irrompeu de dentro dele e ele tentou alcança-la, mas do alto de sua cadeira de rodas o máximo que conseguiu foi cair de cara no asfalto quebrando o nariz.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Aquilo que é e aquilo que poderia ser

“When I was a young boy
My mama said to me
There's only one girl in the world for you
And she probably lives in Tahiti
I'd go the whole wide world
just to find her”

Wreckless Eric

Ele é o tipo de pessoa que não iria sobresair em uma primeira olhada. Era bonito, não havia dúvidas, mas não era fora do comum. Suas outras qualidades, menos aparentes, eram o seu maior chamariz: Inteligente, alegre, simpático, educado e engraçado. Ela por outro lado atraia olhares curiosos de todos quando passava. Morena, alta e esbelta, ela parecia ter saído diretamente dos desenhos de Milo Manara.Todos os homens do ônibus olhavam para ela, mas ele não. Era o único. Estava acostumado com sua presença, fazia muito tempo que se conheciam. Leo e Ana, como seus respectivos pais os nominaram. O ônibus parou em mais um ponto, entrou mais um passageiro com o mesmo destino deles.

- Como você acha que vai ser? – Perguntou Ana – Acha que vai ser legal?

- O último que eu fui foi muito bom. Tenho uma boa lembrança dele – Respondeu Leo – Espero que esse seja também.

- O último que eu fui foi bom, mas tenho péssimas lembranças, estava com o meu ex.

- É, eu também estava acompanhado. Você estava lá, lembra dela?

Ana pensou um pouco e concordou – Lembro sim, como era o nome dela?

- Não importa – disse Leo resignado – Não deu certo.

- Mas vocês estavam bem quando estavam com a gente, brigavam muito?

- Não, nunca. Nos dávamos muitíssimo bem. Alias, bem até demais.

- Então o que aconteceu?

- A gente se dava bem, conversava até altas horas da noite, sempre tínhamos assunto, quando estávamos juntos a noite durava semanas. Às vezes falávamos, às vezes não, mas não importava. Era mágico estar com ela, as coisas aconteciam sem sentido. Uma vez estávamos no meio da madrugada vendo TV e discutindo influências musicais, gostávamos das mesmas coisas e o que o outro não conhecia depois que ouvia já fazia parte do repertório, então no meio dessa madrugada disse que gostava de uma música chamada “Bitter Sweet Symphony” do The Verve, acho que você conhece, aquele clipe que o cara desce a rua passando por cima de tudo e cantando. Conhece?

- Acho que sim... – Respondeu Ana pensativa com um sorriso. Sorriso aquele que, às vezes, lembrava-o que Ana tinha um não sei que de amigo, não de amiga, não por masculinidade, aliás, muito longe disso, mas pela relação de companheirismo que ela oferecia a ele sem pedir nada em troca. Aquele tipo de companheirismo tão comum nos amigos homens de velha data e tão ausente no sexo oposto.

- Então, cinco minutos depois de eu dizer para ela que aquela música me fazia feliz, que eu era louco pela música e que nunca tinha ouvido nada que me fizesse sentir daquele jeito, cinco minutos depois disso tudo começou a tocar a musica na TV. Começou a passar um clipe da música. Foi um momento mágico, e comentamos disso por semanas.

- Então, sem querer ser chata mas... Você não deu motivo nenhum pra não estar com ela.

- Ah! Sim, eu sei. O motivo na verdade é esse sabe. Nós éramos perfeitos um para o outro em todos os aspectos, menos em um. Um sempre queria uma coisa diferente do outro. Quando eu queria vê-la, ligava e ela não atendia, quando ela ligava eu estava com outras pessoas. Algo como um jogo de gato e rato. Só que a coisa foi complicando e escalonando de uma forma que fomos ficando distante um do outro. Começamos a brigar e desistimos de ficarmos juntos. Somos grandes amigos até hoje, mas sabíamos que não era pra ser.

- Se não era pra ser, por que vocês começaram?

- Pela tensão que rolava entre nós. Conversávamos a noite toda, falávamos, riamos e tudo era divertido, tudo sem nenhum compromisso, mas no final sempre rolava uma tensão, olhos nos olhos e tudo mais. Daí a gente ficava. Era legal, mas difícil de dar certo, tinha que ser não programado.

- E a gente? - Ana perguntou com aquele ar dissimulado, tão necessário às mulheres bonitas que tem interesse, mas que mesmo assim precisam de proteção.

- O que que tem?

- Rola tensão?

- Sim.

- E porque nunca rolou nada?

- Por que os dois estão comprometidos com outras pessoas e por que eu me esforço para não estragar tudo. - disse Leo com aparente despojamento e, apesar da grande amizade que nutria por Ana, sentia naquelas perguntas um formigar nas pernas, vindo da adrenalina que o cérebro soltava indicando a ele que aquela era a hora de correr, correr muito para bem longe. Mas ele não correu. Ana olhou para Leo, sabia que tinha que fazer a próxima pergunta.

- E se não fossemos comprometidos?

- Nunca se sabe. Eu e você temos o nosso próprio jogo de gato e rato. Quando eu estou solteiro eu te procuro e você está com alguém. Quando eu estou com alguém, você está solteira e me procura. A gente nunca combina. Nos encontramos agora e nós dois estamos cada um com alguém. Tem uma frase que diz, existe aquilo que é e aquilo que poderia ser, nós somos o que poderia ser, mas nunca se sabe se vai dar certo.

Ana, olhou para fora e disse para Leo:

- Chegamos! Espero que seja bom...

- Vai ser ótimo, estou em boa companhia. - Disse Leo, fazendo um sorriso cúmplice, sentindo aquele formigamento nas pernas e percebendo que não era medo, nem ansiedade, mas algo como uma leve tensão que se formava no ar.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Ela

Ele se encontra no metrô. Lendo um livro a muito já lido e totalmente digerido pelo seu inconsciênte. Seus olhos pulam o texto como se fossem cabritos brincando na montanha, conhecendo o caminho de cor e sem se preocupar com qualquer falta de atenção.

Ela desce correndo as escadas rolantes, trombando e batendo em pessoas mal-educadas que se opõe no caminho entre ela e o tão necessário transporte.

Os dois se encontram na mesma estação. Ele sentado em seu lugar, olhos no livro e relances nos passageiros. Quando ela entra, seus olhos se encontram.

"Será que a conheço?" pergunta a si mesmo. "Só pode ser, seu rosto me é tão familiar. Mas da onde eu a conheço? Será de um antigo emprego? Será da minha infância? Não, da minha infância não. Morei muito longe, lembro de todos que deixei pra trás. Estou com medo, mas não resisto, vou falar com ela."

 - Oi, com licença - Ele diz - Eu não te conheço de algum lugar?

Os passageiros olham ressabiados. Alguns com sorrisos de escarnio no rosto, outros com uma ligeira vergonha daquela frase. Aquela ligeira vergonha alheia tão conhecida de tanta gente.

 - Que cantada velha, não? - Diz ela com um sorriso amarelo.

 - Vai tomar no cú, caralho! Eu só quero saber se a gente se conhece! - Diz com evidente raiva no rosto.

 - Não! Não nos conhecemos! - Diz ela nervosa - Agora, com licença. - e dirige-se ao fundo do vagão.

Ele termina o dia com aquela dúvida de onde a conhecia. Ela também.